Valter Lobo passou pelo Teatro Sá da Bandeira no passado dia 28 de abril, onde apresentou canções do novo disco a sair em junho. Canções essas, que nos tempos que correm, vieram reforçar o seu cunho como um dos melhores letristas independentes deste país…

Com a casa praticamente esgotada e num palco de iluminação intimista, assim entrou Valter Lobo, acompanhado pelo multi-instrumentista Jorge Moura. Passava pouco das 20 horas, quando o artista principal inicia o espetáculo declamando um poema. Termina dizendo, que esta era a “Primeira Parte de um Assalto”, palavras que darão título ao seu próximo álbum.

Algures lemos que seria um assalto até do próprio chão. Por breves momentos, interrogamo-nos: Assalto a quê? Ao coração? À alma? Ao próprio chão, como? Todavia, após os primeiros minutos de concerto, já obtivemos resposta.

Deu-se um assalto a tudo. Levou-nos parte da alma, do coração e até esta ansiedade e melancolia dos tempos tenebrosos e incertos que correm. Na segunda canção, intitulada Privilégio, ecoam pelo Teatro as palavras “Privilégio é estarmos juntos”. Oh céus, é mesmo! Tendo em conta que para a maioria do público este foi o nosso 1º concerto pós-lockdown, estas palavras ressoaram de maneira que se tornou difícil controlar uma ou duas lágrimas melómanas.

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Entre melodias, Valter confessa que não se vê como músico, mas sim escritor de canções e que tinha outro disco em mente, mais alegre e expansivo. Contudo, devido ao suspeito do costume, necessitou de guardar esses temas numa gaveta. Decidindo fazer um disco “mais negro”. No entanto, afirma que terá também o seu típico romantismo pelo meio, o que provocou uma gargalhada de alívio por parte da plateia. Valter tem assim um poder carismático, em que num momento nos puxa o choro no lirismo e no fim, nos leva ao riso com as suas referências de comic relief.

Porém, o artista não se ficou só por novas canções. E recebe uma imensa alegria e colaboração nas cantorias, sempre que devolve ao público aqueles seus temas já indissociáveis como: Oeste, Quem Me Dera, Guarda-me Esta Noite, entre outros. Público este, bastante conhecedor do seu reportório, que torna isto um caloroso concerto entre amigos, tal é a aproximação entre músico e assistência.

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Por falar em amigos, a meio do concerto entra em palco Benjamim, outro nome promissor da nova música portuguesa. Acompanhando ao piano, uma das novas canções que se avizinham, e segundo nos contam, foram gravadas num Moinho em plena pandemia. Mas além desta boa surpresa, não podemos deixar também de congratular o one man show Jorge Moura, que tanto o vemos agarrado a uma guitarra, como a saltar até às teclas e a dar cordas à voz entre temas.

Outro momento da noite a destacar, é o novo single Fado Novo. Ao vivo tem outro poder, é mais cru e austero. Remete mesmo para aquilo que Valter nos contou antes, cuja inspiração do tema veio mesmo daquele pensamento conformista e pessimista, tipicamente português. Onde os versos: “Que espécie de ser/ Num eterno chorar/ Porque o rei não voltava” fazem todo o sentido nesta linha de pensamento.

“Primeira Parte De Um Assalto” será um álbum preponderante e com uma poesia metódica. Poderá ter um romanticismo negro e quiçá conjugar um misto de emoções bipolares pelo meio. Mas será inegável que representa para muitos de nós, o que realmente tem sido o último ano. Foi um prazer enorme ver e ouvir Valter Lobo a dar corpo a um ritmo que se diria quase inusitado no Sá da Bandeira. Que bela maneira de voltarmos a esta sala de espetáculos portuense!

Texto: Ana Duarte
Fotografias: Bruno Ferreira