Seu Jorge esteve esta sexta-feira no Multiusos de Guimarães onde levou todos os fãs numa viagem em que o misto de emoções e sensações foi o mote para a festa.

Eram pouco mais das dez da noite quando as luzes do Pavilhão Multiusos de Guimarães se apagaram e o público entrou num alvoroço, com palmas, e gritos, a chamar pela estrela da noite: Seu Jorge. Assim que soaram os primeiros acordes de “Ela é Bipolar” as últimas quatro filas da plateia abandonaram as cadeiras e decidiram iniciar o concerto deixando-se levar pelo “swing” do artista brasileiro.

Este tema foi o mote para Seu Jorge nos levar numa visita guiada por alguns dos temas do seu mais recente disco de estúdio, “Músicas para Churrasco, Vol. 2“, lançado em março do ano passo. Ouviu-se “Na Verdade Não Tá“, “Faixa de Contorno“, “Mina Feia” e “Motoboy“, o primeiro single retirado deste que é sexto álbum de estúdio.

Até então, em “non stop”, fomos bombardeados com as canções sem quase termos tempo para respirar ou, para os mais “rebeldes”, parar de dançar.

Chegou a hora de recuarmos no tempo. Seu Jorge pede aos fãs, ainda que na sua maioria sentados, para porem as mãos no ar e, como obedientes que são, assim o fizeram e bateram palmas ao som de “Doida“, do disco “Músicas para Churrasco, Vol. 1” (2011).

Todo vestido de preto, de óculos de sol, muito ao estilo de Stevie Wonder (ainda que bastante mais magro e sem as tranças) Seu Jorge tirou os óculos, encarou o público que estava sentado ali à sua frente e deliciou todos os presentes com “Meu Parceiro“, “Vizinha“, “Dois Beijinhos” e “Quem Não Quer Sou Eu“. Lamentamos Seu Jorge mas quem não quer somos nós! Não queremos que este espetáculo ande à velocidade relâmpago como até então, queremos prolongar isto mais um bocadinho, mesmo mal sabendo que o concerto estava tudo menos perto do fim.

Ouviu-se “Zé do Caroço” seguido de um longo discurso. Por momentos quase que fomos transportados até à gala dos Óscares e tínhamos ali à nossa frente o Chris Rock português. A vida e o percurso de Seu Jorge é conhecido, é algo que ele não tem medo de falar, de contar e foi então que ele decidiu declamar “Negro Drama”, dos brasileiros “Racionais MC’s”, acompanhado com uma banda sonora muito ténue, de tiros. A guerra, as questões da liberdade de expressão no Brasil, o abuso de força por parte dos corpos de intervenção da polícia, a pobreza, o perigo, o medo, o drama das favelas.

Seguiu-se um instrumental (demasiado) longo que fez com que alguns fãs começassem a perder a “pica” e o entusiasmo mas, Seu Jorge, tinha um truque na manga e estava na hora de puxar esse trunfo! Era a altura de mandar entrar a convidada de honra deste espetáculo: Marisa Monte. Apesar de já ter sido anunciada a sua presença nos media, ainda houveram uns quantos fãs que desconheciam e não se conseguiram conter de tanta emoção ao ver a ex-Tribalista ali tão pertinho.

Com a sua doce voz, dotada de uma simpatia ímpar, Maria Monte, muito ao seu jeito, emanou emoção em “De Noite na Cama“, “Dança da Solidão” e “Eu Sei“. A artista brasileira pegou na guitarra acústica e agitou os presentes com “Passe em Casa” dos Tribalistas, num dueto delicioso com Seu Jorge.

“Ai que beleza”, podes ter a certeza Marisa, que beleza ter-te aqui para animar mais um pouco este espetáculo. “Vou convidar vocês para cantar outra música comigo”, mas qual seria? No fundo havia todas umas infinitas possibilidades e ela arrebata-nos o coração com “Amor I Love You“. Pronto, estava o caldo entornado, e um ou outro casalinho não resistiu a confessar o seu amor um ao outro. Os telemóveis que até então estavam acanhados, saltaram dos seus esconderijos e posicionaram-se lá no alto dos braços dos seus detentores para registar este momento a dois.

O coro estava afinadinho, com a letra toda na pontinha da língua, ao ponto da artistas ficar impressionada e deliciada com a capacidade dos portugueses em acompanhar. “Me derreto quando vocês cantam comigo, mas me derreto mais quando fazes back vocal”, então, estava à espera de quê? Esta fora uma das canções que marcaram alguns eternos apaixonados, uma canção, para alguns, intemporal que cai bem de quando em quando.

Nestas cinco canções, Seu Jorge não foi o protagonista. O público não permitiu, a Marisa não permitiu, nem o próprio permitiu. Marisa Monte foi a “estrela da noite” nestes momentos que passaram tão mas tão a correr.

A banda sai do palco e Seu Jorge fica completamente só. Acompanhado pela sua guitarra acústica, recorda, para os mais astutos, David Bowie com uma versão em português do Brasil de “Life ond Mars?“. Foi um momento pesado, onde o tão completo artista brasileiro mexeu com todos os seus fãs e de Bowie, não tivesse o Camaleão partido no final do ano passado.

Para aliviar toda a tensão que se sentia, eis mais um enorme momento de instrumental. É isso mesmo, Seu Jorge saiu de cena e a banda entrou em palco e apresentou-se, não através de palavras mas através dos seus instrumentos. Ouviu-se “Everybody Loves The Sunshine” e “Chatterton“. O público aproveitou este momento mais calmo para publicar uma ou outra fotografia e/ou vídeos deste concerto.

Para quebrar estes momentos mais calmos, mais intensos, Seu Jorge atira-nos com “Amiga da Minha Mulher“. O povo largou as cadeiras e sambou ao som deste tema tão bem conhecido de todos nós e, para quebrar as tendências, os telemóveis permaneceram guardados e os fãs estavam de facto a apreciar e a usufruir deste espetáculo.

“Obrigado Guimarães foi um gosto!” Pois, já se sabia que o fim estava perto até porque já íamos com cerca de duas horas de concerto. Para terminar esta primeira parte do concerto, Seu Jorge escolheu “Tive Razão” e “Felicidade“.

Com o palco vazio, e o público não queria pôr um ponto final neste concerto. Gritos, palmas, e de repente o Multiusos de Guimarães começa todo a abanar. O público começou a bater com os pés no chão, provocando uma espécie de tremor de terra e, como se já não estivesse tudo num alvoroço sem jeito, as luzes laterais do palco começam a piscar como quem diz “continuem, usem e abusem, mandem-nos de volta para o palco”.

Seu Jorge e a sua banda cederam à pressão feita pelos fãs e voltaram para o encore para mais quatro temas: “Mina do Condomínio“, “Chega no Swing“, “Carolina” e a tão esperada e desejada “Burguesinha“. Esta última canção quase que era obrigatória até porque era um dos temas mais aguardados pelos fãs. Neste último momento as cadeiras ficaram para trás novamente e o público permitiu-se chegar à primeira fila para cantar e dançar com Seu Jorge, exibindo alguns cartazes que até então estavam guardados para agora.

Este foi um espetáculo “pesado” para o qual Portugal ainda não está bem formatado e custa, em alguns moldes, aceitar, absorver todas estas mensagens subliminares que nos estavam a bombardear quer através das canções quer através do discurso e posição de Seu Jorge. É (em parte) “muita arreia para o meu camião”.

Hoje Seu Jorge ruma até à Capital, para um concerto único no MEO Arena, tão bem acompanhado pela sua banda e pela sua “irmã” Marisa Monte.

 

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