Sérgio Godinho lançou no passado dia 26 de janeiro, “Nação Valente”. Este é o 18º disco de originais do artista português e veio depois de sete anos de interregno.

Desde 2011 que Sérgio Godinho não lançava nada no universo da música. Aproveitou esta pausa para se estrear em outras andanças: ficcionista. Publicou um livro de contos e um romance. A par disso, colaborou com Jorge Palma num álbum e em vários concertos.

Para “Nação Valente“, desafiou vários compositores como José Mário Branco, David Fonseca e Pedro da Silva Martins, a darem-lhe músicas para que as pudesse tornar suas.

Estivemos à conversa com Sérgio Godinho sobre este novo trabalho e a sua vida de artista.

Palco das Artes: Chegou “Nação Valente” depois de um interregno de sete anos. Este disco surge como uma espécie de retrospetiva dos seus últimos 50 anos de carreira, de uma nação que o abraçou?

Sérgio Godinho: Ainda não são 50 anos. Faltam três anos e por essa altura ainda haverá mais novidades. Não é uma retrospetiva, é um momento presente. De um olhar múltiplo daquilo que eu vejo no momento presente e como vêem também os parceiros que tocaram comigo e que compuseram comigo estas canções.

PdA: Músico, compositor, intérprete, escritor. O que acha que ainda lhe falta na sua vida para completar o seu repertório de artista?

SG: Continuar a escrever, por um lado, e escrever em várias áreas. Nomeadamente nas canções como agora fiz e foi muito importante e saboroso voltar a essa matéria das canções, de criar canções. Por outro lado, também comecei a escrever ficção narrativa: um livro de contos e um romance, “Coração Mais Que Perfeito”. Neste momento tenho um outro romance pronto, mas que estou a rever, e que sairá em setembro. A minha vida criativa vai andar nesses dois pólos durante os próximos tempos porque são duas necessidades, dois prazeres, que se completam, e ao mesmo tempo os palcos, que são do mais essencial que existe para mim.

PdA: Em quase meio século muita coisa mudou no mundo e na indústria da música. Para si, qual foi aquela mudança que considera ter tido mais impacto (negativo/positivo)?

SG: Ui, mudou tanto. Quando eu cheguei depois do 25 de abril não havia sequer, digamos, condições de jeito para fazermos espetáculos ao vivo. Tocávamos em condições muito precárias, ao contrário dos nossos discos que tinham uma instrumentação cuidada. Aqui era tudo muito precário. Esse crescimento de começar a haver espetáculos aos vivo – que também se deveu às bandas de rock – com condições, tornou viável a apresentação das nossas canções de uma maneira digna e profissional. Isso foi uma grande, grande mudança.

Depois o que acontece de negativo, quanto a mim, é que o advento do digital trouxe também alguns comportamentos extremamente negativos. Como o facto, de se poder descarregar ilegalmente, copiar CDs, etc. e que “emagreceu” e colocou realmente em risco a indústria discográfica. Hoje em dia, continua a haver uma crise muito grande aí. É preciso legislação consequente.

PdA: “Caríssimas Canções” passou do papel para o palco. Nunca pensou fazer exatamente o inverso? Pegar nas suas canções e transformá-las numa espécie de história de vida, de evolução num cancioneiro?

SG: Não, não, isso não me faria sentido mas é uma pergunta interessante. No “Caríssimas Canções” eram canções de outros, elas já existiam. Eu estava a comentar canções que já existiam. Portanto, cada objeto é cada objeto. Uma vez também me perguntaram se eu não queria fazer contos com as canções que já existiam. E não. O conto já existe, está na própria canção.

PdA: Em três palavras, como resumia/classificava o teor de “Nação Valente”?

SG: Três palavras é difícil porque acabei de dizer mais. É uma canção extremamente positiva, que é diferente de otimista. É uma canção positiva em relação às possibilidades do nosso país. Fala do nosso país, fala de um período muito negro da Troika mas também da vontade de sair disso – embora ainda estejamos “amarrados” em termos financeiros e muito – e puxar pelos nossos próprios brios e pelas nossas próprias forças.


Entrevista: Mónica Ferreira

Comentários