De lotação esgotada, a Sala Suggia da Casa da Música estendeu o palco a um dos nomes emergentes da Comédia portuguesa, Salvador Martinha.

O espectáculo iniciou-se por volta das 22h de quarta, já com a sala praticamente a rebentar pelas costuras. Azar (ou sorte) daqueles que chegaram atrasados, tendo sido estes os visados de variadas piadas à medida que iam chegando, como já tem sido alvo nos espectáculos deste comediante lisboeta.

“O Centro das Atenções”, espectáculo de Salvador Martinha de aproximadamente duas horas, conta com a interacção com a plateia, não fora esta o nome do show e protagonizado num palco 360°, próximo do público. Através de um jogo aleatório, brincando com os focos de luz, Salvador foi entrevistando a audiência, sempre com toques do seu imprevisível e minucioso humor. A par disso, foi disparando piadas que giravam em torno da indumentária da pessoa até traços físicos ou mesmo em torno do nome ou profissão do seu alvo.

Martinha chamou progressivamente a si o protagonismo do espectáculo e, através de um monólogo burlesco, caricaturou aspectos do seu quotidiano ao longo do espectáculo, com o qual muitos dos presentes se identificaram. Foram evidentes as gargalhadas arrancadas pelo comediante que parodiou episódios do dia-a-dia com a família, viver com amigos, classes sociais e não faltaram as piadas sempre fáceis de conteúdo escatológico.

Através de piadas genuínas, mas não menos risíveis, muito do mérito de Salvador Martinha reside na sua figura jocosa, assumida pelo próprio como “exótica” e na sua face caricata que o tornam um cómico singular.

Um dos grandes trunfos que o distingue de outros comediantes é a capacidade de improvisar perante as mais diversas situações. Chega ao ponto de debochar de expressões proferidas pela plateia durante a sua atuação e elaborar piadas com elas. Isto sem nunca perder o rumo do espectáculo. Por entre piadas já apresentadas noutros espectáculos, houve espaço para testar novos materiais e novas personagens, talvez apenas criadas naquele contexto e para aquela plateia, somente.

É admirável a capacidade de Salvador Martinha de entreter a plateia, ávida de gargalhadas e que, com certeza, saiu satisfeita, a julgar pelas expressões de satisfação à saída da belíssima Sala Suggia.

Houve ainda espaço para algumas perguntas da audiência, dirigidas ao artista, sobre vários temas, desde a origem da personagem imaginária Gualter, passando por temas abordados no espectáculo, e terminando com algo mais sério, como o assédio sexual.

Num mundo com tanta violência, o humor surge como um vetor de mudança que pode transformar a sociedade, para melhor. Faz falta rir, não só dos outros, mas sobretudo, de nós próprios, que nos ridicularizemos. A vida não pode ser levada tão a sério, e Salvador Martinha ensina-nos isso.


Texto: Gonçalo Neves
Fotografias: Rita Pereira

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