Chegou ao fim mais uma edição do Rock in Rio Lisboa. Para trás ficam dias de grande alegria, dança, partilha cultural, sensibilidade ambiental e música.

A oitava edição do Rock in Rio Lisboa já terminou. Para trás, ficam também grandes momentos. E ainda que todos os cabeças de cartaz tenham cumprido os requisitos, houve pequenas canções ou gestos que levamos connosco.

Não nos esquecendo da loucura de Matt Bellamy ou Katy Perry, mas deixando algum starpower para outros artigos, listamos, de seguida, oito momentos inesquecíveis para quem passou pelos relvados da Bela Vista durante os dias de festival.

1. “Of The Night”, Bastille

Rock in Rio Lisboa | Agência Zero

O concerto que marcou o regresso dos britânicos a solo português foi recheado de momentos de cumplicidade. Dan Smith não só pediu desculpa pelo “português de m****” que tentava falar, como surpreendeu os milhares de pessoas que preenchiam o relvado da Bela Vista.

Dan chegou mesmo a dedicar uma música a Donald Trump. “Rock in Rio, a próxima canção é um cover muito estranho de uma música, de duas músicas pop dos anos 90, que sempre pensámos que eram a mesma. (pausa) Este festival é lindo visto do palco, por isso vou pedir-vos ajuda. A um ponto desta música, eu vou dizer “baixem-se todos” e é o vosso momento de se, se se sentirem bem, simpáticos e dispostos e se puderem ser importunados a descerem comigo até ao chão e depois, quando eu gritar “Saltem!” e vocês saltarem vai ser fantástico. E eu prometo ser um pouco menos estúpido durante cerca de um minuto ou dois, e até prometo envergonhar-me e dizer em português: Saltem!”.

O resultado? Uma moldura humana incrível que se baixava e saltava ao ritmo na noite. Uma discoteca ao ar livre onde perdíamos os olhos nas pessoas embriagadas pela música e loucura dançante do momento.

2. Pedido de casamento, AGIR

Rock in Rio Lisboa | Agência Zero

«É o seguinte, apesar desta imagem, eu sou um sentimentalista, um sentimentalão, e gostava de chamar ao palco um rapaz chamado Diogo», não é o Diogo Piçarra, apressou-se AGIR a acrescentar. «Onde é que ele está? Está aí? Barulho para o Diogo, bora lá».

No ecrã, um rapaz erguido pelos seguranças chega ao palco acompanhado da sua namorada. «Venham até aqui. O microfone é todo teu». O português entrega o microfone ao fã que discursa: «Eu podia estar aqui a contar uma história que já vem desde janeiro, mas eu só tenho duas coisas a dizer: em primeiro lugar, quero agradecer ao AGIR e a toda esta equipa fantástica por me proporcionarem este momento e em segundo lugar, é uma pergunta que tenho a fazer e só há uma pessoa que me pode responder».

Gritos ensurdecedores. Diogo ajoelha-se e pergunta à namorada se aceita casar com ele. O público grita pelo jovem enquanto este coloca o anel no dedo da sua, agora, noiva. AGIR convida-os a assistir ao resto do espetáculo no palco e o alinhamento segue com uma pertinente “Como Ela é Bela”.

3. “Mar de Outono”, “Maria” e “Casinha”, Xutos e Pontapés

Rock in Rio Lisboa | Agência Zero

«Nós só estamos aqui porque vocês querem, mais nada. Vamos cantar um tema, que estará no próximo disco. Chama-se Mar de Outono… Ainda vão poder ouvir algumas coisas que não estavam à espera». Aplausos de apoio num dos concertos mais emocionantes de Xutos e Pontapés: o primeiro Rock in Rio sem Zé Pedro.

Rock in Rio Lisboa | Agência Zero

Nos ecrãs, fotos e fotos dos “jovens” Xutos: de momentos que dividiram enquanto banda, em digressão, em estúdio, enquanto amigos acima de colegas. E se achámos que estávamos prontos para tudo, não estávamos. A chuva começa a cair com mais intensidade, no dia de S. Pedro, e Tim volta a dirigir-se ao público. «Vocês deram-nos a oportunidade de irmos buscar umas fitas antigas e de conseguirmos, se tudo correr bem, tocar com o Zé Pedro outra vez, neste palco, uma música inteira. Por isso, ainda bem que há vídeos, há telemóveis, há essas coisas… Para vocês, pessoal, uma interpretação solene, impossível de repetir, no Restelo do Zé Pedro na música que se chama “Para Ti, Maria” e é esta». Um solo enorme de Zé Pedro, uma ainda maior ovação. Lágrimas, chuva e uma enorme energia que se foi intensificando com o avançar dos acordes. Jovem e sorridente, Zé Pedro agarra-se à sua guitarra rítmica, e interage com o público.

A canção encerra com o icónico guitarrista, de braços abertos, numa foto a preto e branco, e a homenagem prossegue. «Quero agradecer, em primeiro lugar, ao Rock in Rio por nos ter emprestado o palco, para fazer esta música, este concerto e este tributo ao Zé Pedro. Muito obrigado a vocês que são o melhor público do mundo».

4. “Runaways”, The Killers


Foto: ROB LOUD,@robloud

Começou sem aviso prévio. Sem introdução. Ouvem-se palmas. «Conhecem esta? Então vão ter de mo provar», Brandon Flowers, bem disposto, chegou mesmo a falar português.

Gritos, lágrimas e muitos saltos. Há momentos que são mágicos só por acontecerem. “Runaways” no Palco Mundo foi um desses momentos.

«Bem vindos ao nosso maravilhoso, maravilhoso espetáculo. Passaram-se cinco anos. Foi demasiado tempo».

5. “When I Was Your Man”, Bruno Mars

Rock in Rio Lisboa | Agência Zero

Se há momentos mágicos só por aquilo que nos transmitem – muitas lágrimas na estreia de Demi Lovato em Portugal, muitos saltos na estreia de Hailee – os momentos de comunhão entre público e artista entram num patamar inalcançável: noutro nível de satisfação.

Se o concerto do Bruno Mars foi, num todo, um ponto alto destes quatro dias de festival; “When I Was Your Man” foi, sem sombra de dúvidas, um dos pontos altos do concerto do hawaiano. Numa profunda entrega ao público, a letra foi partilhada entre palco e recinto, sentida, cantada, gritada, bradada, interiorizada e chegou mesmo a ter efeito em Bruno Mars.

A verdade é que não foi a única altura em que a audiência foi capaz de devolver os arrepios a Mars, “Versace On the Floor” ou “Just The Way You Are” tiveram o seu destaque. Mas há algo muito humano num homem que chora por amor. E o single, de Unorthodox Jukebox, foi um dos momentos que carregámos no peito até casa, quando cruzámos os portões do parque.

6. Mundial de Futebol: Uruguai x Portugal e Revenge of the 90s

Rock in Rio Lisboa | Agência Zero

Ainda que o resultado não tenha sido o melhor, a verdade é que se viveu, intensamente, o jogo de futebol que opôs a seleção uruguaia à portuguesa. Parabéns ao Rock in Rio pela a iniciativa de transmitir o jogo do mundial. O hino, porém, não chegou a ser-se ouvido, um reparo que fez a diferença a quem se sentava na relva. O nervosinho miudinho era palpável.
Bandeiras, cachecóis, pinturas, camisolas e muitos mochileiros a regar um jogo que se adivinha difícil.

Aos seis minutos, a Bela Vista ficou congelada de olhos presos nos ecrãs. Roíam-se unhas, trocavam-se insultos, suspiravam-se “ahs” pelos quase remates, quase golos, bem, por quase tudo. O intervalo chegou com o resultado desfavorável e um desânimo latente.

Rapidamente esquecido pela invasão de palco dos Revenge of the 90’s que, como o nome indica, traziam consigo a loucura dos anos 90. Entraram com “Everybody” Backstreet Boys, seguiram com “Hakuna Matata”, “Circle of Life”, “I Like to Move It”, “Follow the Leader”, a presença do icónico Macaco Adriano e até o antigo hino na SIC. A confusão instalada com as bolas insufláveis, o fumo e os papelinhos, elevaram a moral, mas, mesmo assim, não foram suficientes para alterar a prestação dos portugueses na Rússia.

Rock in Rio Lisboa | Agência Zero

Durante a segunda parte, ainda pudemos gritar golo e testemunhar um momento caricato. Um festivaleiro vestido de Batman, que cruzou os céus no slide, ficou preso a alguns metros da torre de chegada. Os minutos que passou suspenso no ar, justificaram acenos ao público no solo que ia cumprimentando o anti-herói e foi mesmo necessário que um dos membros do staff resgatasse o cavaleiro das trevas.

7. “Canto da Cidade”, Ivete Sangalo e Daniela Mercury

Rock in Rio Lisboa | Agência Zero

Ivete Sangalo é presença assídua na cidade do rock – e nunca desilude. O furacão brasileiro põe toda a gente a levantar o pé do chão. Mas, desta vez, fez-se acompanhar de outra cara acarinhada pelo público português: Daniela Mercury.

Ivete desfez-se em elogios a Mercury que apelidou de desbravadora, por ter internacionalizado a música brasileira antes de qualquer outra cantora. A amizade entre as duas, que dizem ter sido fortalecida pelo passar dos anos, foi visível nos olhares embevecidos que trocaram ao interpretarem, a duas vozes, o hit de Daniela Mercury “O Canto da Cidade”. «Vocês fazem-me sentir em casa aqui».

8. Jessie J e o slide

Rock in Rio Lisboa | Agência Zero

A cantora britânica voltou a Portugal para cantar velhos e novos sucessos, e a dar a ouvir, uma vez mais, a voz potente que a distingue de algumas estrelas pop. Emocionalmente exposta, Jessica falou sobre a sua vida, a adolescência, a auto-estima, a depressão e a família. Porém, a postura anti-diva foi destacada pela simplicidade e deslumbramento: como se fosse apenas uma criança.

Jessie J perdia os olhos pelo público e pelo slide, cumprimentava cada pessoa que lhe acenava, distribuía beijos e abraços e prometeu, quase desde início, olhar nos olhos cada um dos presentes na audiência do seu concerto.

«É um fator de distração», «ali vai outro», era nos interlúdios que aproveitava para entregar aos fãs no slide um aceno de mão ou um sorriso rasgado.

Soltava uns olás honestos e ria-se com gosto enquanto um e outro “sobrevoavam” o céu noturno do parque lisboeta.


Texto: Raquel Cordeiro

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