Nick Cave encerrou a 7.ª edição do NOS Primavera Sound, num concerto místico onde as lágrimas se tornaram chuva e a noite num cenário onde se falou de dor.

A verdadeira tempestade da noite do passado sábado começou a partir do momento que Nick Cave subiu ao palco NOS. Embora o concerto tenha começado mais cedo do que estava previsto, podia (E DEVIA) ter-se prolongado pela noite dentro. Um artista de tamanha magnitude não devia ter estado em palco apenas ao longo de uma hora.

O cenário era o ideal, aliás, quase que parecia todo ele ter sido encenado. A chuva e o frio contribuíram para aumentar a misticidade da performance do artista que, acompanhado pela banda Bad Seeds, arrancou ao som de “Jesus Alone” seguido de “Magnet”.

No centro do palco, bem perto da multidão que acreditava que Nick fosse saltar para os vários braços esticados no ar, tal como aconteceu há uma semana em Barcelona, cantou “Do You Love Me”. Seguiu-se “From Her To Eternity”.

Sobre uma praia e uma figura vestida de preto como fundo, cantou “Girl In Amber”. A chuva não deu tréguas e ao som de “Tupelo” ajudou a dramatizar ainda mais o tema. Aumentou o ambiente dramático e melancólico que se fazia sentir, chegando ao seu auge com Nick a pontapear tudo à sua frente após cantar “Jubilee Street”. Os aplausos, apesar de muitos, foram poucos perante tal talento.

Estava a chover, mas foi Cave que acabara de criar o dilúvio no Parque da Cidade.

O ponto alto da noite – senão mesmo o ponto alto do festival – aconteceu quando num silêncio ensurdecedor se começou a ouvir os primeiros acordes de “Into My Arms”. Este que é um dos temas mais conhecidos, cantou acompanhado pelo público do início ao fim. “Thank you, Porto”, atirou para o ar no fim da música.

Num mini palco que surgia do palco principal para meio do relvado apareceu Cave a controlar a plateia que, segurando no microfone, seguiu sincronizadamente o jogo de palmas criado pelo artista. Um mestre a controlar a sua orquestra. Poderia a fasquia elevar-se ainda mais naquele concerto?

Não há dúvidas que são então poucos os artistas que fazem estremecer uma multidão. Também não restam dúvidas que Nick Cave faz parte dessa lista de artistas. Há mais de 40 anos Cave que envolve o público nas suas letras dolorosas e nas suas melancolias. Faz também com que este acabe por sentir o mesmo sofrimento que ele. A despedida do Porto aconteceu com “Push The Sky Away”, tornando a noite mais escura e a chuva mais pesada.


Texto: Rita Pereira
Fotografia: Hugo Lima | NOS Primavera Sound

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