Cerca de um ano depois, o Lado Esquerdo prepara-se para voltar à Casa da Música, no Porto, a 10 de março. Vão também estrear-se no Teatro do Bairro em Lisboa a 2 de março.

Quem são o Lado Esquerdo? Uma banda nortenha com oito anos de experiência e com um punhado de produções próprias.

Entre colaborações especiais com Zé Pedro, Kalú dos Xutos & Pontapés, João Grande dos Táxi, segue-se agora “Acreditar”. Este é o segundo disco da banda a ser apresentado em Lisboa e no Porto no próximo mês de março.

Afinal, o que é a Música? Em que ponto se encontra o panorama musical? Estivemos com o Alex, a voz do Lado Esquerdo, numa conversa um pouco diferente.

Palco das Artes: Alex, com a digitalização da música a nível global e as consequências que daí advêm. Nomeadamente, a nível de receitas, os artistas têm vindo a servir-se das plataformas digitais para promoção e captação de novo público com o intuito de servir o propósito realmente lucrativo: os concertos ao vivo. Na tua opinião, entre o digital e o físico, em que habitat vês o Lado Esquerdo a fazer valer os seus prós e a chegar a mais público?

Alex: Apesar do meu mestrado em gestão de marketing, ainda me é difícil responder a essa questão. Sou autor, escrevo canções, a minha vontade seria responder: no céu, no interior das pessoas. Agora respondendo mais diretamente, com os pés na terra: como o Zé Pedro me disse uma vez, com a força do digital, não temos que estar menos no físico. Temos que estar sempre nos dois, trabalhar muito bem os dois. Confundires a tua própria existência com a tua presença no digital, é um erro compreensível mas que te pode “matar” aos poucos.

Tens que ser, existir, fazer acontecer: nos palcos, no estúdio, na estrada, onde fores tu próprio. A minha resposta até aqui alargou-se à existência e identidade da banda/artista, porque no que toca especificamente aos álbuns, a nível estratégico, a aposta no streaming é claramente o futuro.

PdA: Há artistas que aparecem sucessivamente escalados para tocar em festivais de Verão. É onde há, normalmente, uma grande afluência de público. Contudo, no resto do ano é frequente vê-los tocar em locais de concertos de capacidade mínima, como bares. Porque achas que isto acontece?

A: E muitas vezes são projetos que não duram mais de um ano, e no ano seguinte está lá outro com os mesmos músicos. Às vezes, não têm sequer um álbum, têm um EP. Não estamos a falar de música. Estamos a falar da indústria da música portuguesa. E a indústria da música portuguesa raramente circula em função do produto (a música), mas sim em função de intermediários (editoras, programadores, pais, tios e padrinhos) e de dinheiro. É triste.

PdA: Entre festivais, festas académicas, festas concelhias, entre outras, qual é o ambiente em que vês o Lado Esquerdo a criar um maior impacto junto do público?

A: Nos festivais de música pop, vejo o Lado Esquerdo a destacar-se positivamente. Nas festas académicas, a demarcar-se com força, com festa. Nas festas das vilas e cidades, a oferecer um dia especial às pessoas, porque efetivamente aquele dia é delas, nós termos o privilégio de ser convidados para aquele momento tão especial, é uma imensa responsabilidade (temos sido repetentes em várias, o que me deixa agradecido e orgulhoso).

PdA: Se tivesses todos os meios necessários, que vertentes do vosso espetáculo procuravas melhorar?

A: No patamar onde nos encontramos, várias. Espero ter a oportunidade de ver e fazer o espectáculo crescer. Mas atenção, por outro lado, enquanto cresço como ser humano dou mais e melhor de mim ao concerto (as pessoas não choram com o fogo de artifício, choram se fores genuíno e verdadeiro). Talvez a componente audiovisual principalmente, não em exagero, com estética, conceito e identidade. A mais importante, para mim, é a interação. O concerto faz-se no palco e na plateia.

PdA: Quais têm sido os maiores obstáculos para agendar concertos, produções próprias ou não, em Portugal?

A: As nossas produções próprias têm acontecido de uma forma geral, com muito êxito em todos os níveis. Agendar concertos, efetivamente sim, tem sido um problema. As editoras têm hoje em dia um poder sufocante no que toca ao booking. Se és vereador da cultura numa câmara municipal, pelos vistos não estás apto para definir a programação musical das festas da cidade (na maioria dos casos).

“Tenho a convicção de que a música do Lado Esquerdo se destacaria muito positivamente.”

Contratas uma empresa, ou um intermediário, que fará a programação da tua festa. Esse intermediário (generalizando mais uma vez) vai ter a oportunidade de ser pago pelos serviços que presta à câmara, e à editora que lhe dita os três/quatro artistas que devem ter uma agenda altamente preenchida nesse ano. Os maiores festivais de verão (que na minha opinião têm oferecido cada vez mais espaço para a música portuguesa, mesmo não sendo num palco principal) programam muitas vezes em função de um artista que tem um espectáculo na agenda produzido pelo mesmo produtor desse festival (assumindo a componente promocional da presença da banda/artista no festival). Ou então, muitas vezes, concede a curadoria do palco secundário a uma estação de rádio, ou agência que por sua vez irá privilegiar os seus artistas.

Os curadores e/ou diretores dos centros de artes e espectáculos municipais (são dezenas a cheirar a tinta fresca em Portugal), ao Lado Esquerdo, respondem que já estão a agendar para 2019. Quando lhes digo que nesse caso, desejo agendar para 2019, deixam de responder (presumo que não tenham perdido três segundos para ouvir o projeto, porque quem ouviu, diz que foi o melhor projeto a passar pelo espaço a cantar em português – isto aconteceu várias vezes).

PdA: Se sintonizarmos as rádios nacionais com mais ouvintes, é fácil perceber que não variam muito a playlist. Tendo em conta o crescimento dos serviços de streaming, onde podes selecionar a tua própria playlist, e a facilidade em aceder a esses serviços em casa, no carro, enfim, em todo o lado, qual é a tua perspetiva sobre esta posição da rádio?

A: Francamente, uma rádio privada, bem ou mal, que faça o que lhe apetecer. É privada, não é nossa. Por outro lado, gostaria de compreender mais e melhor a seleção e programação musical de uma estação como a Antena 3. É uma rádio pública, que é nossa. Compreender se o acesso à playlist e/ou apoio da estação são mais possíveis caso lhes apresentes a tua música diretamente, ou através de uma assessora de imprensa (exatamente a mesma música).

Gostaria de compreender porque é que nenhum dos responsáveis nos respondeu quando apresentamos este ano o novo trabalho. Tenho a convicção de que a música do Lado Esquerdo se destacaria muito positivamente, a certeza de que há enquadramento e contexto. Fico triste. Constatas um cenário de oportunidade, a anteceder a questão. E bem, é mais fácil chegares tu próprio às pessoas. Quem disser que isso é mau por proporcionar a chegada de lixo musical às pessoas, “sem filtro”, está a atirar-te areia para os olhos. Se ouvires a maioria das rádios nacionais, ouves o auge desse tal “filtro”: gostas daquilo que os outros decidiram que vais gostar. O Salvador Sobral fartou-se de falar nisto, mas ninguém quis saber.

PdA: De uma maneira geral, o que é que mudavas?

A: Mudava pessoas. Pessoas da indústria. Demasiado dinheiro, contactos e amizades. Pouca música. Demasiada incompetência, demasiada lei do menor esforço. Essas pessoas insultam a “música”. Isto não é “só música”, ou “só cultura”. É importante, é muito importante para as pessoas. Isto numa perspetiva geral. Há gente muito boa também, muito capaz e muito bem intencionada. Ainda sou novo, tenho meia dúzia de vitórias, mas já coleciono uns milhares de decepções. Felizmente! Cada vez me levanto melhor. Cada vez mais valorizo o palco, os aplausos, o percurso do Lado Esquerdo. Sou um apaixonado por música, por aquilo que faço, pelo nosso Portugal. Portanto, se me continuarem a dar esse privilégio, não vou parar nunca!

Comentários