A Casa da Música entrou numa viagem no tempo com Jorge Palma esta quinta-feira. “Só”, e não só, ecoou por toda a Sala Suggia com bastante emoção.

21h, Casa da Música: As pessoas subiam as escadas, apanhavam o elevador, faziam fila à porta da Sala Suggia para serem os primeiros a tomarem o seus lugares e aguardarem ansiosamente pelo concerto. Confesso que fui uma dessas pessoas, não porque o meu lugar ia fugir, mas porque precisava reparar melhor no público que esgotou este espetáculo. Tentar perceber de que forma o poderiam sentir.

Análises feitas, quando dei por mim já as luzes estavam a apagar e o palco iluminado. Um piano, uns projetores, que iluminavam discretamente o instrumento, um bengaleiro e ao fundo uma tela gigante que iria ilustrar o que se ia ouvir. O concerto arrancou algures num campo de trigo. Se estávamos sós? Não, tínhamos Jorge Palma com o ar pensativo, como se uma retrospetiva estivesse a fazer, como se a vida lhe estivesse a passar por ali.

Do nada as imagens vão-se e Jorge Palma surge-nos do lado esquerdo do palco e, num passo apressado, senta-se ao piano. Começámos a “Viagem na Palma da Mão” com uma voz limpa, madura, segura, e todo um arrepio se apoderou de nós. Está diferente. Estranhamente diferente, mas para melhor. Na verdade, fui ao espetáculo ainda meia reticente, com algumas dúvidas mas logo ali, mesmo no princípio dos princípios fui esclarecida e rendi-me.

Avançou para “O Meu Amor Existe” mas não sem antes pendurar o casaco com que tinha entrado no bengaleiro. Senti-me em casa, onde o meu convidado era Jorge Palma e “Só”. Havia emoção, nervos, a fazerem ricochete nas paredes da sala e um senhor, que se mostrava um jovem com menos 25 anos em cima do pelo, pronto para nos acalmar e aconchegar ainda que a transparecer algum nervosismo e inquietude.

“Gostam de filmes de terror?”, pergunta-nos para nos atirar com “Deixa-me Rir” depois de uma empolgante viagem pela “Terra dos Sonhos”. Interpretações repletas de saudade, de emoção, com a intensidade elevada ao seu expoente máximo com imagens interpoladas de vídeos de André Tentugal com planos de Jorge Palma ali e agora. Canção atrás de canção e nos intervalos ainda revela o seu sentido de humor  com uma ou outra piada.

O tema que se segue, Palma explica-nos que se inspirou em “Frerejacque” de Mahler – uma melodia popular infantil que nos é tão conhecida – e sem sabermos já estávamos entranhados na “Canção de Lisboa” e a cantarolar já menos acanhados. Aos poucos e poucos, estava a conquistar-nos (ainda mais) e a libertar-nos, a incentivar-nos, ainda de que uma forma nada clara, a sermos nós próprios, a deixarmo-nos ir pela canção.

Seguiu-se “Estrela do Mar” que dedica à sua esposa presente na sala. De quando em quando, e entre canções, foi-se levantando para esticar as pernas e para nos agradecer com uma vénia. O senhor toca e canta com emoção, ele dá tudo, sente-se que é algo que o cansa mas que o apraz ainda mais.

Pela primeira vez as luzes acendem-se na sua totalidade e Jorge Palma mira-nos. Quiçá foi o momento em que caiu em si e que tinha ali uma Casa da Música a rebentar pelas costuras.

Depois de “À Espera do Fim” dedica-nos “Bairro do Amor”. Os vídeos que até então adornavam o cenário minimalista, deram lugar a um jogo de sombras com um contra-luz, onde tínhamos Jorge Palma “pequeno” por fora mas grande por dentro, nas suas obras.

Saiu-se com “Jeremias, o Fora da Lei” para nos levar por “Frágil” e anuncia-nos o  “Fim” ao mesmo tempo que voltamos para o campo de trigo do início. Contudo, “A Gente Vai Continuar” e aqui puxa realmente por nós. A cantar em sussurro, e com o público a subir o tom, vai-nos dando sinal com a mão como quem diz “mais alto, mais alto”. Nós fizemos-lhe a vontade, não contrariados, não só porque sim, mas porque era o que queríamos, o que nos apetecia.

Terminadas as 15 canções que compõem o disco “Só”, avisa-nos que está prestes a interpretar Sonata 8 de Beethoven, depois de nos lembrar que não é nenhuma espécie de Maria João Pires.  A sala solta umas gargalhadas ainda a pensar que estava na brincadeira connosco ao que responde com um “estou a falar a sério”. E estava mesma. Foram momentos de pura concentração, de repensar, de interiorizar, uma introspeção pessoal.

Recorda-nos os tempos que passou em França, quando tocava Léo Férre e como as pessoas o olhavam de lado por ser um jovem a interpretar algo pesado, sombrio, com uma carga emocional que ele pensava na altura ter. “Passava logo para Dylan”, diz-nos atrás de uns sorrisos.

A primeira parte do concerto encerrou com “Dá-me Lume” e Jorge Palma sai do palco e torna a entrar à mesma velocidade a que saiu. “Isto é o encore”, graceja e sem demoras recorda-nos Leonard Cohen e Bob Dylan com “Bird on the Wire” e uma versão acelerada, como o próprio brincou, de “Forever Young”, respetivamente.

“Portugal Portugal” deu por terminada a primeira noite do mês de dezembro.

Jorge Palma embalou-me, embalou-nos. Acolheu-nos nos seus braços e num aperto aconchegou-nos com as suas palavras envoltas em melodias delicadas que nos são tão estranhamente conhecidas. Se repetia? Nem pensava duas vezes.

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Texto: Mónica Ferreira

Fotografias: Bruno Ferreira

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