João Aguiar deixou a vida que tinha para trás para embarcar numa viagem à volta do mundo. Aquilo que era para ser contado num blog acabou num livro, podcast e documentário.

João Aguiar despiu-se de medos, pegou na mochila e aventurou-se pelo mundo a fazer couchsurfing. Nós estivemos à conversa com ele para saber mais sobre este projeto.

Palco das Artes: Adeus a todos, mochila às costas aqui começa uma aventura. Como é que surge na sua vida esta vertente, digamos assim, de Júlio Verne?

João Aguiar: (Risos) Bem, desde já obrigado pela comparação com o Júlio Verne. Respondendo à questão, desde novo que sou curioso pelo mundo. E acho que o somos todos, certo? Felizmente, tive a sorte de poder viajar bastante desde essa idade. Fosse de carro ou uma ou outra vez de avião. Para além disso, desenvolvi um gosto por línguas estrangeiras, em campos de férias internacionais, nas aulas de inglês e francês ou também através de música estrangeira que seguia muito. A par disso, os livros de aventuras e de viagens fascinam-me desde essa idade.

“Somos apenas uma raça e um degradé impressionante pessoas, povos e paisagens”

Então, acho que estes fatores em conjunto, foram catalisadores para partir de mochila às costas, juntamente com o facto de estar num momento da minha vida em que não tinha compromissos que me fixassem a Portugal, como por exemplo um empréstimo, uma carreira pré-estruturada, um casamento ou filhos.

PdA: Podia ter escolhido ficar em hotéis, hostels, e por aí fora. Contudo, apostou no couchsurfing. Quando assim decidiu, o que estava a pensar encontrar/experienciar?

JA: O meu foco em viagem é conhecer a sociedade local, imergindo nela o mais possível. Para além disso, pelo couchsurfing também existe um intercâmbio cultural, em que conhecemos pessoas locais que muitas vezes fazem questão de nos mostrar a sua região ou cidade. E nós também oferecemos algo em troca, por cortesia, ou cozinhamos um prato da nossa gastronomia.

Como eu valorizo estes aspetos, bem como o lado social e de estabelecer contactos internacionais, então isto era, por si só, motivador. Adicionado sobre isto, o couchsurfing, e já agora, é importante referir outros sites similares como o hospitality club, o global freeloaders, o warmshowers, o bewelcome, o wwoofing e o servas, são redes de pura hospitalidade e generosidade em que ninguém paga nada. E este aspeto também possibilitou mais facilmente esta viagem, o que foi ouro sobre azul. Assim, não só iria beneficiar de um entrosamento genuíno e profundo com a sociedade local mas não iria despender grandes quantias com isso, como se ficasse num alojamento de luxo num hotel ou pousada.

PdA: Passou por várias casas, diferentes realidades e estatutos económicos. De entre todas, qual foi aquela que o marcou mais?

JA: Marcou-me imenso a hospitalidade e generosidade da família Ziani em Rabat, capital de Marrocos. O seu filho mais velho, Hassan aceitou receber-me e a receção deles todos foi mesmo calorosa. Todos estavam entusiasmados e interessados em conhecer o estrangeiro português a viajar à aventura pelo seu país.

Os dois filhos sonhavam viajar na Europa, bem como estudarem cá literatura. Eles eram pessoas com objetivos internacionais concretos e que valorizavam a cultura e o conhecimento. E tanto gostei da forma simpática como me receberam que corri o restante mundo a falar desta família, contando que me receberam divinamente pelo couchsurfing. Também sempre mantive um contacto com eles ao longo da viagem, fosse por e-mail ou Skype.

“Estou a planear uma segunda viagem que abarcará também os vários continentes”

Contudo, já chegado a Portugal, certo dia o irmão mais novo, Ali, veio falar comigo no Skype para me escrever “Tengo que dicerte algo”. Em conversa contou-me que um radical islâmico matara o seu irmão de repente, em Tânger, apenas porque ele costumava ir a um café com viajantes do couchsurfing, de onde tinham uma vista sobre o Estreito de Gibraltar. Foi esfaqueado e morreu a uns cem metros de um hospital… Está aqui a notícia.

Ainda hoje fico a pensar como é que a sociedade pôde neste caso, fazer algo assim a umas das pessoas mais generosas que conheci no mundo inteiro. Foi gratuito, foi um azar e uma tremenda injustiça. Mas temos que refletir sobre como é importante premiarmos a generosidade pois caso contrário, as pessoas ficam com medo de o serem. E quanta coisa se faz no mundo com base nela… Quase tudo. Pense-se no que as famílias passam aos filhos. A generosidade e a hospitalidade não podem ser limitadas, nem condicionadas.

PdA: Aquilo que era para ser um blog, acabou transformado num livro, num podcast e ainda num documentário. Como surge esta evolução? Ficou alguma coisa por fazer, seja a nível de viajante, seja a nível cultural?

JA: Antes de sair em viagem criei o blog e que fui alimentando com alguns posts e fotografias ao longo da viagem. Mas fui também fazendo gravações áudio e vídeo. Ia filmando paisagens, situações, conversas ou gravando entrevistas áudio e música ao vivo. Então quando regressei senti necessidade de trabalhar todo o este material que recolhi na estrada.

O podcast para mim foi mais imediato porque já fizera antes vários programas de rádio. Então, lancei o programa Os Meus Descobrimentos na Rádio do IST, sobre a viagem, as músicas que descobri, contando algumas das peripécias e entrevistando pessoas que fui conhecendo.

Depois veio a necessidade de compilar e trabalhar todos os registos em vídeo e fotografia, para tal congeminando um documentário. E como o cinema é um forte gosto meu foi natural fazer isto e estou neste momento a terminar o documentário que é lançado nas próximas semanas. Quanto à parte da questão referente a se ficou algo por fazer… Uma vez que gosto de trabalhar iterativamente nos projetos até estar satisfeito com eles, posso sempre pensar que se poderia fazer algo diferente ou melhor… Ou com novas ideias. Mas a verdade é que, ao mesmo tempo, estou satisfeito com o que fiz. E sinto que a viagem ficou documentada, tanto para os leitores e seguidores, como para mim, o que me deixa tranquilo com este projeto de contar e documentar a viagem.

PdA: De que forma esta experiência o enriqueceu enquanto pessoa, profissional…?

JA: Enriqueceu imenso, claro que sim. Primeiro porque aporta mundividência e permite-me passar a ver o mundo de uma forma mais holística, integrada e com conhecimento de causa. Porque uma coisa é agirmos em função daquilo que ouvimos dizer sobre o resto do mundo e outra coisa é termos estado nós lá e termos a nossa imagem do local e que captámos com os nossos sentidos. Para além disso, acresce que uma viagem que une o mundo, também tem o condão e a possibilidade de ver o planeta como um só, assim quebrando barreiras, preconceitos e fronteiras. Porque a verdade é essa: eles não existem.

Somos apenas uma raça e um degradé impressionante pessoas, povos e paisagens neste planeta ainda predominantemente telúrico e feito de terra e mar. E isto traz uma outra visão do mundo e do ser humano. Esta viagem tornou-me ainda mais humano, acredito. Antes de ir para ela – e fruto da educação que tive a sorte de ter tido, quer em casa, como na escola ou nas experiências que fui tendo por mim ao longo da juventude – sempre fui tolerante, calmo, solidário, humano e empático. Mas depois de uma viagem destas, ficamos ainda mais. E foi o que sucedeu comigo.

Para além do conhecimento que recebemos… Não e fácil quantificar. Já a nível profissional, também nos dá uma outra visão do mundo, que de repente fica muito mais curto, alcançável e desmistificado. Porque, por exemplo, afinal de contas, ir até ao país X da América do Sul é simples e se quiser trabalhar lá ou abrir lá um negócio, as coisas são simples. E esta viagem também me ensinou isto.

PdA: Qual tem sido o feedback das pessoas a estas suas obras? De que forma, num país agastado pela economia, considera que esta sua iniciativa pode contribuir para o incentivo do povo português? Em lutar pelo que quer, que gosta e sentir-se realizado?

JA: Desde já obrigado por sugestionares que o livro pode ter esse efeito. E eu espero mesmo que tenha. E quando o escrevi, fi-lo em parte com esse intuito também. Porque acho que a autoestima nacional é em grande medida, muito baixa. Por um conjunto de fatores cuja análise seria longa e eventualmente não bastante precisa até. Mas o que interessa agora é concluir que este é o quadro atual da população. E disso não tenho dúvida.

Então, partindo desta premissa factual, acredito mesmo que a autorrealização, o seguir a nossa intuição, a não cedência a fazermos o que os outros querem que façamos mas antes fazermos o que queremos, claro que sempre com respeito, viabilidade financeira, e humana também, já agora, então, isso é essencial para uma maior felicidade, quer a nível individual quer coletiva como povo. E as viagens conseguem ter este efeito algo regenerador e epifânico nas pessoas. E por isso, espero que o livro motive as pessoas a verem o mundo por elas. Descobrindo-se a elas mesmas nesse percurso, para então depois se realizarem e contribuírem para uma sociedade mais harmoniosa em Portugal.

PdA: Haverá uma “round 2” desta viagem solitária?

JA: Neste momento, para além da promoção deste livro, estou a planear uma segunda viagem que abarcará também os vários continentes. Como ainda está nos estágios iniciais e o meu foco agora está neste livro, peço aos leitores que sigam as minhas redes sociais. Conto dar notícias quanto à próxima aventura durante os próximos meses.


Entrevista: Mónica Ferreira

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