Os Arctic Monkeys foram umas das bandas que marcaram o início de mais uma edição do NOS Alive, no Passeio Marítimo de Algés.

Palco simples, sóbrio com um letreiro luminoso a dizer MONKEYS. Alex Turner, de blazer branco, óculos estilo anos 70 e cabelo penteado para trás mantém a coerência do ambiente criado. Não era necessário mais, afinal os Arctic Monkeys sabem jogar pelas suas regras e fazem o seu jogo, numa fase em que agradar às audiências mais fieis parece irrelevante.

Criticado por uns, venerado por outros, “Tranquility Base, Hotel and Casino” marca o capítulo seguinte desta banda. Agora numa vertente charmosa sofisticada, muito focado na figura de Turner.

Em consonância com o novo trabalho, apresentam-se experientes e sentimentais, deixando a febre dos riffs de “Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not” para adotar um estilo crooner. Alex assume um papel de narrador ao piano acompanhado por acordes simples de guitarra dos restantes membros. O espetáculo começou com “Four Out of Five”, uma das músicas mais faladas do novo álbum.

Não era óbvio o que se iria seguir.

Com o público meio adormecido desta lentidão rítmica surgem os primeiros acordes de uma velha conhecida, “Brianstorm”. Os Arctic Monkeys afinal ainda sabem ser os miúdos de Sheffield que marcaram o rock britânico pela sua irreverência.

A transição para “Don’t Sit Down ‘Cause i’ve Moved Your Chair” foi natural. Em maré de saudade, soaram então “Crying Lightning”, “The View From The Afternoon” e “Teddy Picker”.

A esta altura alguns perguntavam-se se era um espetáculo de celebração de carreira ou a dita apresentação do novo álbum. Sem pausas para conversas ou agradecimentos, “505” continuou esta noite de concertos. Os fãs, consolavam-se a cada retorno ao passado.

Através duma passagem algo inconsistente, foi finalmente então tocada aquela que deu nome ao álbum. “Tranquility Base Hotel + Casino” coloca Alex Turner no piano e poderia ser a banda sonora de uma noite num hotel sofisticado, acompanhada de um whiskey. Não o foi, mas sim algo que soou estranho no ambiente animado de Festival de Verão.

Por entre voltas ao passado com “Do Me A Favour”, “Cornerstone”, “Why’d Only Call Me When You’re High?”, “Pretty Visitors”, “I Bet You Look Good On the Dancefloor” e as descoladas canções do novo disco, “One Point Perspective” e “She Looks Like Fun” ficou a faltar algo.

Esta encruzilhada pela procura de uma identidade levou os britânicos a quebrarem a progressão natural do espetáculo.

Primeiro cativaram e excitaram o público, depois deixaram o lume morrer, e, posteriormente, colocaram nova lenha na fogueira, embora esta já estivesse morta e em cinzas.

O próprio encore não foi então suplicado pela plateia, foi quase oferecido num jeito cínico de quem tem o dever a cumprir. “Star Treatment”, “Arabella” e finalmente “R U Mine” concluíram o espetáculo.

Uma atuação competente, não ao nível do que eram os Arctic Monkeys nem do adequado para um Festival de Verão. O novo disco talvez funcione num modelo de concerto mais intimista. Onde haja espaço para um audição cuidada da letra e dos arranjos musicais. Não aqui, no NOS Alive.

Alex e colegas admiravelmente continuam a fazer boa música, passados tantos anos. Da ousadia da juventude para a deriva de uma crise de meia idade, estes são os Artic Monkeys.

A procura por uma imagem que, invariavelmente, afastará alguns e conquistará outros, é um risco que a banda parece prestar-se a correr. Será o objetivo a conquista de novos públicos ou apenas uma afirmação coletiva da banda?


Texto: Gonçalo Neves
Fotografia: Arlindo Camacho | NOS Alive

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