Os Anaquim fizeram as malas e deixaram a casa, em Coimbra, para subir até ao norte. O quarto disco da banda é lançado no próximo dia 2 de novembro.

O lançamento d’”O Quarto de Anaquim” em disco acontece ainda esta semana, mas o disco já foi disponibilizado nas plataformas digitais. Numa correria em que o relógio parecia não querer dar tréguas, o Palco das Artes conseguiu sentar-se à conversa com um quinto da banda, ou melhor, com José Rebola, o vocalista.

Falámos do recente projeto, “O Quarto de Anaquim”, aprendemos a ler as entrelinhas de “Meio Caminho Andado” e apercebemo-nos que ser optimista pode revelar-se a nossa melhor faceta.

Palco das Artes: “O Quarto de Anaquim” é o vosso novo projeto que nos fala um pouco sobre o cruzamento entre o velho e o novo mundo, as origens e novos caminhos. Porquê é que esse cruzamento só poderia ocorrer em Portugal?

José Rebola: Esse cruzamento, na verdade, vai acontecendo um pouco por todo o lado. Mesmo na dimensão do tempo, estamos habituados a pensar nas coisas a três dimensões, mas são quatro. Há uma banda de Israel, que é só bateria, tuba e guitarra, que tocam músicas como as do Dick Dale – do tema do Pulp Fiction – e eles imitam basicamente o som dele. O engraçado é que, o Dick Dale, estava a imitar um guitarrista israelita, que era o Aris San, que estava radicado na Grécia.

Basicamente a música deu a tal volta ao mundo, cruzaram-se umas coisas pelas outras e foi assim. O estilo de música que nós tocamos, que é o jazz manouche, surgiu quando os europeus tentaram tocar jazz sem os instrumentos que os americanos tinham, ou seja, com as cordas. Por isso é que foi mais um cruzamento interessante.

Nós voltámos a por metais neste álbum, voltámos a ir buscar ritmos a Nova Orleães, mas, ao mesmo tempo, estamos a juntar a canção francesa do jazz manouche, estamos a juntar as influências que temos da nossa música portuguesa e, este caldeirão em particular, este cruzamento específico entre o velho e o novo, só poderia acontecer aqui no nosso cantinho, no nosso quarto.

PdA: Isso levou-vos à escolha do título “O quarto de Anaquim”?

JR: Sim, daí o nome “O quarto de Anaquim”. E também para marcar que este é o nosso quarto álbum.

PdA: O lançamento deste 4º álbum de originais reflete a evolução da banda?

JR: Eu tenho a certeza que nós crescemos enquanto banda. Não sei se é uma coisa que se sente talvez quando vais ver vídeos antigos e reparas: “ei como isto era…” Mas a verdade é que, ao te veres ao espelho todos os dias, não notas a tua cara mudar, só quando fazes um contraste com alguma coisa que está bastante para trás é que tu notas que realmente algumas coisas mudaram.

PdA: O que mudou?

JR: Mudou a maneira de como estamos em palco, estamos mais relaxados. Mudou a maneira como apresentamos as coisas. Não temos tanta pressa de apresentar tudo e de apresentar tudo ao mesmo tempo. Nós, de certa forma, aprendemos a respirar, aprendemos a pousar e a conseguir não nos atropelarmos a nós próprios. Encontrámos o nosso ritmo.

PdA: A ironia e a boa disposição são dois aspetos que definem o vosso estilo enquanto banda. Neste disco, voltamos a ouvir histórias do quotidiano?

JR: Sim, nós achamos que as coisas não têm que ser sempre abordadas de uma maneira densa. Eu costumo dar este exemplo, que é um filme que eu gosto bastante e que acho muito tonto, que é o Robin Hood – Heróis em Collants. A certa altura o xerife está a dar uma notícia ao rei e o rei diz “não quero ouvir más noticias” e o xerife diz “mas eu tenho uma má notícia” e o rei diz “então tente dar-me a má noticia de uma maneira boa”.

Eu sinto que é isso que estamos a fazer na nossa música, estamos a abordar alguns assuntos que são assuntos densos que são importantes de ser abordados mas que nem por isso têm que ser abordados de forma dramática, pode se encontrar ali ironia e humor, o que não torna as coisas menos sérias. O contrário de ser engraçado não é ser sério. Pode-se fazer as coisas com alguma leveza e ao mesmo tempo abordar temas que são importantes.

Capa d'"O Quarto de Anaquim"
Capa d’”O Quarto de Anaquim”
PdA: Escolheram a Casa Da Música como o primeiro palco a pisar para a apresentação deste trabalho. O que podemos esperar desse concerto?

JR: Esse concerto vai ser de certa maneira uma incógnita, por ser o primeiro deste novo álbum. Não sabemos como as pessoas vão reagir, espero que bem. Não tragam alimentos para atirar por favor! Vamos mostrar esta nova fase do nosso trabalho, os novos temas. Queremos que seja uma festa, um diálogo. Não queremos ter 10 nem 20 concertos iguais, portanto vimos para mostrar a nossa música às pessoas e vimos para ver a reação das pessoas.

PdA: Embora vocês sejam os cinco suspeitos, uma vez que cresceram todos em Coimbra, notam alguma diferença em atuar em casa ou noutra cidade?

JR: Eu acho que há diferenças, de atuar em casa. Atuar em casa, não necessariamente em Coimbra, seja a banda de que cidade for, é sempre diferente de atuar noutro lado. Por um lado é melhor, porque as pessoas estão mais envolvidas, há laços emocionais e afetivos, há laços familiares, há já um legado das bandas que vieram antes de nós e dos projetos que influenciámos.

De nós para a cidade e da cidade para nós. Há essa responsabilidade também, sinto-me muito mais nervoso quando toco em Coimbra. São essas duas faces da mesma moeda, é sem dúvida diferente. Não é necessariamente especial, há apenas mais elos de ligação, embora procuremos estabelecer esses elos onde quer que vamos. A segunda vez que tocamos numa cidade nunca é igual à primeira, já há pessoas que começam o concerto com um sorriso, porque já nos viram. Isso facilita, uma pessoa vai-se sentindo integrada.

PdA: Foi fácil criar uma banda na cidade de Coimbra?

JR: É fácil começar uma banda em Coimbra. Há muitas bandas que começaram e começam em Coimbra. Lembro-me, pelo menos nas últimas duas décadas, houve muitas bandas boas de Coimbra e vai continuar a haver.

Difícil é ter a ligação aos principais pólos urbanos, que são Lisboa e Porto. Pode acontecer a banda sentir-se numa ilha entre os dois pólos, pode haver essa dificuldade. Acho muito importante que haja bandas radicadas em Évora, em Coimbra, em Faro… Acho que isso ajuda imenso ao panorama musical e gostava de ver mais coisas a acontecer nessas cidades e penso que é vital para as coisas não ficarem demasiado concentradas.

PdA: Com os vossos trabalhos anteriores habituaram-nos com a participação de diferentes artistas nos álbuns. Podemos esperar o mesmo deste? Podem divulgar algum nome?

JR: Para já não. Para já os convidados deste álbum são instrumentais. Temos tantos convidados como no último álbum, mas que apenas foram convidados para tocar instrumentos. Temos de harmónica, banjo, trombone, trompete, clarinete. No entanto, não me recordo de um álbum nosso em que os convidados tivessem tanta voz, eles acabam por ajudar a definir a sonoridade deste álbum. Não nos vai ser fácil interpretar os temas sem os convidados, vamos ter de arranjar a nossa versão das nossas próprias músicas, o que é um desafio interessante.

PdA: Quem vos for ouvir no Porto, Lisboa ou Coimbra, o que podem esperar do concerto?

JR: Vamos ter convidados diferentes entre cada concerto. No Porto vamos ter o trombonista, o clarinetista e o vibrafonista que são o João Seco, Paulo Bernardino e o Nuno Ribeiro respetivamente.

PdA: “Meio Caminho Andado” é um dos temas que pertence ao novo álbum. É uma canção que fala sobre amor ou é uma canção que procura passar mais alguma coisa para além do significado imediato?

JR: É engraçado teres-me feito essa pergunta, dessa maneira em específico. Eu escrevi de facto essa música sobre amor, sobre uma pessoa que está à procura, já fez tanta coisa para encontrar a relação e que acaba por estranhar, – depois de tanto “meio caminho andado” – como é que ainda não chegou ao fim do caminho.

Depois, noutro dia, ocorreu-me quando estava a ouvir as notícias e a história da emergência do Bolsonaro e da maneira como as pessoas estão polarizadas no mundo, que a música pode ser interpretada dessa maneira. De termos meio caminho andado para encontrar as pessoas que estão à nossa volta que têm opiniões diferentes de nós e que, se calhar, em vez de as antagonizarmos, imediatamente, e de escolhermos viver na nossa bolha, já que temos meio caminho andado, por sermos vizinhos, de termos uma cultura, de termos um idioma, como é que ainda nos sentimos perdidos para encontrar as outras pessoas que ocupam o mesmo espaço que nós.

Acaba por ser um paradoxo. Acho que a música pode funcionar nesse sentido. Temos meio caminho andado para nos encontrarmos uns aos outros, mas se calhar ainda não o soubemos fazer da melhor maneira.

PdA: Enquanto país, somos a maior parte das vezes encarados como um povo pessimista. Tal como vocês retratam em “Optimista”, ao tentar mudar essa faceta podemos estar a desperdiçar um talento natural?

JR: Pois, na verdade nós somos bons. Na verdade, temos é já muita experiência a ser pessimistas e pouca a ser otimistas. Enquanto país penso que o otimismo poderá trazer mais benefícios, mas o otimismo não deve ser cego. Podemos é mudar a ordem aos planos, ter um plano A e acreditar que ele pode correr bem e, depois ter um plano B para um caso de backup. Parte do processo acredito que passa por ser otimista.

Não é por acaso que as primeiras intervenções que se fazem em pessoas com depressão é pô-las a olhar em frente de cabeça alta, postura direita, porque o corpo interpreta esses sinais. Às vezes bastam esses estímulos para criar uma espiral ascendente, em vez de descendente. Partir para as coisas com uma perspetiva otimista pode ajudar ao desfecho das coisas, o que não equivale a dizer que tudo vai sempre correr bem, devemos contemplar também esse cenário.

PdA: Para terminar, os Anaquim são uma banda otimista?

JR: Eu gostava de responder que sim, mas também gostava de não mentir. Pessoalmente gosto de partir para as coisas com essa ideia, mas gosto de estar preparado para as coisas não correrem assim tão bem.

Em termos do que achamos que vai acontecer, a nível musical, político, social, isso sim, acreditamos que as coisas podem caminhar sempre numa melhor direção. Não somos advogados do Armagedão nem do colapso da Humanidade, nada disso. Vejo musicalmente muita boa banda no nosso país, que o nosso país começa a estar musicalmente e socialmente mais atento a algumas coisas, portanto vislumbro as coisas com uma certa luz do sol.


Entrevista: Rita Pereira

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