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“Veraneantes”: TNSJ torna-se a casa de verão das “elites” russas

Veraneantes
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Com encenação de Nuno Cardoso, Veraneantes explora a ociosidade da classe média e média-alta, na antecâmara da sangrenta revolta de 1905.

Em 1904, ano em que faleceu Anton Tchékhov, na Rússia, Maksim Gorki escrevia Veraneantes. Alguns críticos teatrais consideram que a peça – que se estreou a 9 de março no Teatro Nacional São João (TNSJ), no Porto, com encenação de Nuno Cardoso – é uma espécie de sequela de O Cerejal, de 1903. As referências ao “mestre” da dramaturgia russa, de quem Gorki era admirador e amigo, tanto são diretas, com menções nas falas das personagens, como se deixam descobrir no desenrolar da ação ou até mesmo nas pausas. As semelhanças entre os dois dramaturgos são muitas, mas, em Veraneantes, em cena no TNSJ até dia 18 de março, Gorki é direto no seu “ataque” à classe média e média-alta.

Em Veraneantes, Gorki explora o meio social da pequena burguesia ascendente e as classes trabalhadoras que começam a revelar novas orientações ao pensamento e uma nova postura na ação política e social. Na encenação de Nuno Cardoso – que regressa com este espetáculo à dramaturgia russa – encontramos quatro famílias, com personagens que se dividem por profissões liberais, médicos, engenheiros, advogados e as mulheres deles, um escritor em crise de inspiração e uma poetisa. Numa piscina meia submersa, em época estival, mostram-se acomodados à sua “vidinha”, com vontade de esquecer as suas raízes. Maria Lvovna, uma das personagens, afirma que são, todos eles, “filhos de lavadeiras, de cozinheiros, de gente sadia, gente trabalhadora. Nunca houve no nosso país pessoas instruídas ligadas por laços de sangue à massa do povo”.

A tensão vai agudizando entre conflitos, invejas e traições e com a aspiração e o inconformismo das personagens mais desalinhadas, mas o cenário é encarado como “um recreio”, onde os atores se divertem juntamente com os espectadores. O texto escrito na antecâmara da sangrenta revolta de 1905, que abriria caminho à Revolução Bolchevique de 1917, é claro nesse repto de apelar à ação em detrimento da “conversa”, onde podemos encontrar paralelismos com a atual conjuntura nacional e que são assumidos por Nuno Cardoso. Como refere numa cena Varvara Mikháilovna: “Vivemos de uma maneira estranha! Falamos, falamos e mais nada”.

O espetáculo, que se estrearia em S. Petersburgo, encenada por uma companhia mais experimental, foi alvo de criticas, apupos e artigos hostis, mas Gorki não desmoralizou. Queria que as pessoas visadas em Veraneantes percebessem que o texto era-lhes “dedicado”. A peça acabaria por ser proibida pelas autoridades, uns meses depois da estreia, e Gorki encarcerado, por envolvimento nas manifestações contra o czarismo. O seu amigo Tchékhov acabaria por dizer numa ocasião que ele inventava “pessoas originais que cantam canções em segunda mão”. Talvez seja esse, muitas vezes, o caminho do inconformismo?

Veraneantes resulta de uma coprodução de Ao Cabo Teatro, Centro Cultural Vila Flor, Teatro Nacional D. Maria II e TNSJ. O espetáculo pode ser visto às quartas-feiras, às 19h00, de quinta a sábado, às 21h00, e aos domingos às 16h00. O preço dos bilhetes varia entre os 7,50 e os 16 euros. A sessão de dia 12 março conta com intérprete em Língua Gestual Portuguesa, sendo que nessa data decorre também no TNSJ uma oficina criativa dedicada a crianças e jovens, tendo como mote a peça. Após a temporada no TNSJ, o espetáculo vai ser apresentado no Convento de S. Francisco, Coimbra (22 de março); Theatro Circo, Braga (24 e 25 de março); Centro Cultural Vila Flor; Guimarães (1 de abril); Teatro Nacional D. Maria II, Lisboa (6 a 9 abril) e Teatro Aveirense (13 de abril).

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