Há um fascínio qualquer em histórias verídicas ou “baseadas em factos reais”. Os filmes que se fazem acompanhar por esta promessa conquistam-nos, só por si. “São Jorge” não é baseado em factos reais. “São Jorge” é um facto real. Um documentário disfarçado de filme. Um momento da nossa história recente disfarçado de narrativa.

A partir da ideia de fazer um filme sobre o boxe, Nuno Lopes e o realizador Marco Martins acabaram por levar a cabo um profundo trabalho de pesquisa sobre os efeitos da austeridade. Contaram com as pessoas do Bairro da Jamaica e do Bairro da Bela Vista, que assumiram tantas vezes a primeira pessoa, no filme. Há um misto de ficção e de não ficção em várias cenas, sobretudo naquelas em que as pessoas estão reunidas à volta da mesa, para tomar a sua refeição.

Já lhe chamaram “murro no estômago”. Quanto a nós, São Jorge fica arquivado na pasta “banho de realidade”, para que não se perca a memória de tempos especialmente difíceis para tantos portugueses, durante o recente período de austeridade. A violência presente no filme não acontece propriamente nas cenas de boxe, nas quais Jorge luta por um bom resultado. A violência presente no filme está nos pormenores, nos diálogos que não se ouvem e que denunciam os efeitos da austeridade na vida de todos os dias. Se saírem da sala a achar que o filme é violento – imaginem só a vida real daquelas pessoas.

O desemprego, a falta de comida na mesa, o acto de constantemente contar o dinheiro para ver se chega para comprar alguma coisa. O futuro que parece não existir quando o presente é escasso. E a necessidade de sobreviver – daí a trabalhar para uma empresa de cobranças difíceis, foi um pequeno passo para Jorge. O motivo? O seu filho e a possibilidade da sua mulher regressar ao Brasil, com o rapaz. Ao tomar esta decisão, Jorge leva-nos a conhecer o mundo das pessoas que devem dinheiro. E esse mundo está povoado de pobres e de “ricos”. Somos todos iguais: seja o senhor que vende legumes no MARL, seja o chef de cozinha do restaurante mais IN de Lisboa.

De Lisboa ao Bairro da Bela Vista ou ao Bairro da Jamaica, locais onde Nuno e Marco fizeram a sua pesquisa são vinte minutos de carro. Ninguém diria. Vinte minutos. Tão perto e tão longe, simultaneamente.

A prestação de Nuno Lopes como o pugilista Jorge, no filme São Jorge, resultou no prémio de melhor actor no Festival de Veneza, em Setembro de 2016. O discurso de Nuno Lopes fez eco nos telejornais e na imprensa escrita e o nome dos bairros da Bela Vista e da Jamaica caminharam lado a lado com um dos filmes mais fortes e crus que vimos nos últimos tempos.

O fim de semana de estreia deste filme conheceu mais de 10 000 espectadores e várias sessões esgotadas.


Texto: Joana Rita Sousa

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