Verão rima com festivais de música: eles andam aí, fim de semana após fim de semana, a invadir o país e a proporcionar emoções (estéticas) aos festivaleiros.  A aldeia Filosofia não fica atrás: sim, também há um festival de verão. Mas um festival com algumas particularidades: apenas uma banda que toca  todo o tipo de músicas, em ode aos filósofos que por cá moram.

A banda é constituída por Nietzsche, na bateria, Sartre no baixo, Wittgenstein na voz, Peirce no contrabaixo, Montaigne na viola, estando os coros a cargo de Pascal, Espinosa e Montesquieu. Um luxo. Durante dois dias estes filósofos espalham magia no coreto da aldeia. O festival é preparado com muito cuidado de forma a que (quase) todos os habitantes (re)vejam a sua perspectiva filosófica numa das músicas.

Convidei alguns amigos para o festival, que é, acima de tudo, uma oportunidade de convívio. Além disso, no final, Nietzsche destrói sempre a bateria, numa performance altamente zaratustriana e divertida.

É a primeira vez que venho ao  ζωντανός confessou o André. Mas estou muito curioso. A nós juntaram-se a Ana, a Xana, a Lili, o Hugo, a Fátima, a Cláudia, o Carlos Miguel, o Pedro e a Sandra. Ah, e a Madalena, que veio expressamente de Luanda para assistir ao festival. Podia lá eu perder uma oportunidade destas? Só espero que não me calhe na rifa um bailarico qualquer, dizia a Madalena, enquanto trocávamos os passes de dois dias pela pulseira.

Vários foram os êxitos (filosóficos)  que fizeram eco pela aldeia. O utilitarismo, de Stuart Mill com o êxito Use somebody, dos Kings of Leon. A provocação a Santo Agostinho, com uma cover de Putos a roubar maçãs, dos Dead Combo. A referência ao motor imóvel de Aristóteles com Running to stand still, dos U2.

E várias canções de amor: Somebody that I used to know, de Gotye, assumindo a perspectiva de Schopenhauer, o Love me do dos Beatles a fazer lembrar o amor platónico. E tantas foram as questões éticas que nos surgiram com temas como Hedonism, dos Skunk Anansie e o Try walking in my shoes, dos Depeche Mode. Aristipo de Cirene e Epicuro, que estavam a trabalhar no festival, a vender cerveja com um barril às costas, foram encontrados a discutir as questões do prazer em vez de circular entre as pessoas. Parece que para o ano não serão contratados.

A  segunda e última noite terminou com uma fartura na roulote da Santa Teresa d’Àvila, que desta forma tentar angariar fundos para as Carmelitas. E não houve melhor forma de celebrar dois dias de filosofia e música: saboreando uma fartura (mística). Para o ano há mais.

Comentários