Está aqui!
Home > Cinema > “O Rio do Ouro” regressa às salas em versão digital restaurada

“O Rio do Ouro” regressa às salas em versão digital restaurada

O Rio do Ouro
Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on Google+Email this to someone

O Rio do Ouro, de Paulo Rocha, volta ao circuito comercial 15 anos após a sua estreia, numa versão digital restaurada pela Cinemateca Portuguesa. O filme de Paulo Rocha vai estar em exibição no Cinema Ideal de 14 a 20 de abril.

A reposição do filme de Paulo Rocha ocorre na mesma altura que chega às lojas a respetiva edição em DVD, lançada em conjunto com Se eu fosse Ladrão… Roubava, última obra do cineasta, numa coedição da Midas Filmes e da Cinemateca Portuguesa.

Esta é a segunda coedição da Cinemateca Portuguesa com a Midas Filmes, depois de em maio do ano passado terem sido editados em DVD e repostos em sala os dois primeiros filmes de Paulo Rocha, também em versões digitais restauradas pela Cinemateca: Os Verdes Anos e Mudar de Vida.

O Rio do Ouro

[…] O grande triunfo de O Rio do Ouro é a forma como se apodera das manifestações de cultura popular e as consegue transmitir numa singular fidelidade no que se refere ao seu espírito. Quem tenha memória deste tipo de manifestações (narrativas de tragédias de aldeias contadas e cantadas em festas e romarias, que era uma forma de transmissão oral desses acontecimentos de aldeia em aldeia da província) não deixa de reconhecer que o filme de Rocha surge como uma materialização perfeita dessa forma de “passagem” de voz a voz de um certo testemunho.

E não tanto pela presença emblemática de uma dessas figuras (o cego na estação orientado por uma criança, num plano de singular pureza e força) ou pela toada das melodias que recuperam admiravelmente os seus modelos, mas principalmente pela forma como estão encenadas, e, em particular, a belíssima cena da festa popular, o São João com as três raparigas que cantam e que servem não só de “coro” e “eco” dos personagens e acontecimentos, como de “ligação” entre eles, insinuando-se e deslizando de uns para os outros, numa espécie de bailado cuja coreografia está em consonância com o tema da cantiga.

Mas não é só na sua forma musical que o filme de Rocha se identifica com essas formas de cultura popular. Há também a paisagem que seduz mas também oprime e parece esmagar os personagens, sensação reforçada pelos ângulos de câmara, especialmente os planos captados da casa sobre o rio e a paisagem circundante. Dir-se-ia, aqui, uma “selva” que prende os personagens e os molda à sua “forma”, mantendo-os numa “prisão” de onde apenas se foge pela morte. […] Mas o filme é também Isabel Ruth. Fora pensado para ela quando foi projecto nos anos 60, e foi retransformado para que ela lhe desse corpo e vida agora. […] O Rio do Ouro pode ser visto como a sua consagração. Ela não é apenas a actriz neste filme. Ela é a própria matéria viva que o alimenta, a seiva que o percorre, a música que o acompanha.

Manuel Cintra Ferreira in Folhas da Cinemateca

Se eu Fosse Ladrão… Roubava

Partindo da memória familiar e da matéria dos seus filmes, Paulo Rocha revisita as suas origens e as referências maiores da sua vida e obra, numa construção fluida e complexa, que é conscientemente testamental embora só indirectamente autobiográfica (ele filma-se através do pai e dos personagens da sua obra). O motor inicial do filme é a evocação da infância e juventude do pai do autor, em particular o sonho obsessivo deste, na altura partilhado por muitos, de emigrar para o Brasil, para onde partiu efectivamente em 1909 (embora a cronologia verdadeira, tal como os factos e os nomes, sejam alterados, ou por vezes deslocados, em função das rimas com os outros filmes). Mas este tema familiar cruza-se desde o início com o grande mundo da obra de Rocha, num puzzle de raccords temáticos que se dirige para dentro e para trás (a busca do centro, ou da origem…) tanto quanto para fora (a constante ampliação de sentido, a identidade de um país).

Paulo Rocha fala portanto da sua própria necessidade de partir, e da interrogação de Portugal através da distância – o tempo formativo em Paris, depois a longa estada no Japão -, assim como fala da morte, mas também da doença e de um medo tornados endémicos, corrosivos de um país. Em paralelo, vão surgindo, nos excertos dos seus filmes, grandes referências da sua obra: homens como o escritor radicado no Japão Wenceslau de Moraes (1854-1929), o poeta Camilo Pessanha (1867-1926) ou o pintor Amadeo de Souza Cardoso (1887-1918) – todos representantes de um fulgor criativo dos inícios do século tanto quanto justamente, de uma relação problemática com o país de origem. Por outro lado Se eu fosse ladrão… é ainda um repositório de um outro diálogo estruturante da obra de Paulo Rocha – neste caso, particularmente associado a Amadeo – em que a inspiração na cultura universal se funde com um trabalho genuíno, dir-se-ia antropológico, sobre a cultura popular portuguesa, em especial centrada na região norte do país (os pescadores do Furadouro, o vale do Douro…).

Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema

Comentários
Top

Este site utiliza cookies próprios e da Google para personalizar conteúdo e anúncios, funcionalidades de redes sociais e análise de tráfego. A informação contida nestes cookies pode ser partilhada com os nossos parceiros fornecedores das funcionalidades descritas atrás. Ao navegar neste site, estará a consentir a utilização destes cookies. Saiba mais sobre o uso de cookies.

The cookie settings on this website are set to "allow cookies" to give you the best browsing experience possible. If you continue to use this website without changing your cookie settings or you click "Accept" below then you are consenting to this.

X