O Rio do Ouro, de Paulo Rocha, volta ao circuito comercial 15 anos após a sua estreia, numa versão digital restaurada pela Cinemateca Portuguesa. O filme de Paulo Rocha vai estar em exibição no Cinema Ideal de 14 a 20 de abril.

A reposição do filme de Paulo Rocha ocorre na mesma altura que chega às lojas a respetiva edição em DVD, lançada em conjunto com Se eu fosse Ladrão… Roubava, última obra do cineasta, numa coedição da Midas Filmes e da Cinemateca Portuguesa.

Esta é a segunda coedição da Cinemateca Portuguesa com a Midas Filmes, depois de em maio do ano passado terem sido editados em DVD e repostos em sala os dois primeiros filmes de Paulo Rocha, também em versões digitais restauradas pela Cinemateca: Os Verdes Anos e Mudar de Vida.

O Rio do Ouro

[…] O grande triunfo de O Rio do Ouro é a forma como se apodera das manifestações de cultura popular e as consegue transmitir numa singular fidelidade no que se refere ao seu espírito. Quem tenha memória deste tipo de manifestações (narrativas de tragédias de aldeias contadas e cantadas em festas e romarias, que era uma forma de transmissão oral desses acontecimentos de aldeia em aldeia da província) não deixa de reconhecer que o filme de Rocha surge como uma materialização perfeita dessa forma de “passagem” de voz a voz de um certo testemunho.

E não tanto pela presença emblemática de uma dessas figuras (o cego na estação orientado por uma criança, num plano de singular pureza e força) ou pela toada das melodias que recuperam admiravelmente os seus modelos, mas principalmente pela forma como estão encenadas, e, em particular, a belíssima cena da festa popular, o São João com as três raparigas que cantam e que servem não só de “coro” e “eco” dos personagens e acontecimentos, como de “ligação” entre eles, insinuando-se e deslizando de uns para os outros, numa espécie de bailado cuja coreografia está em consonância com o tema da cantiga.

Mas não é só na sua forma musical que o filme de Rocha se identifica com essas formas de cultura popular. Há também a paisagem que seduz mas também oprime e parece esmagar os personagens, sensação reforçada pelos ângulos de câmara, especialmente os planos captados da casa sobre o rio e a paisagem circundante. Dir-se-ia, aqui, uma “selva” que prende os personagens e os molda à sua “forma”, mantendo-os numa “prisão” de onde apenas se foge pela morte. […] Mas o filme é também Isabel Ruth. Fora pensado para ela quando foi projecto nos anos 60, e foi retransformado para que ela lhe desse corpo e vida agora. […] O Rio do Ouro pode ser visto como a sua consagração. Ela não é apenas a actriz neste filme. Ela é a própria matéria viva que o alimenta, a seiva que o percorre, a música que o acompanha.

Manuel Cintra Ferreira in Folhas da Cinemateca

Se eu Fosse Ladrão… Roubava

Partindo da memória familiar e da matéria dos seus filmes, Paulo Rocha revisita as suas origens e as referências maiores da sua vida e obra, numa construção fluida e complexa, que é conscientemente testamental embora só indirectamente autobiográfica (ele filma-se através do pai e dos personagens da sua obra). O motor inicial do filme é a evocação da infância e juventude do pai do autor, em particular o sonho obsessivo deste, na altura partilhado por muitos, de emigrar para o Brasil, para onde partiu efectivamente em 1909 (embora a cronologia verdadeira, tal como os factos e os nomes, sejam alterados, ou por vezes deslocados, em função das rimas com os outros filmes). Mas este tema familiar cruza-se desde o início com o grande mundo da obra de Rocha, num puzzle de raccords temáticos que se dirige para dentro e para trás (a busca do centro, ou da origem…) tanto quanto para fora (a constante ampliação de sentido, a identidade de um país).

Paulo Rocha fala portanto da sua própria necessidade de partir, e da interrogação de Portugal através da distância – o tempo formativo em Paris, depois a longa estada no Japão -, assim como fala da morte, mas também da doença e de um medo tornados endémicos, corrosivos de um país. Em paralelo, vão surgindo, nos excertos dos seus filmes, grandes referências da sua obra: homens como o escritor radicado no Japão Wenceslau de Moraes (1854-1929), o poeta Camilo Pessanha (1867-1926) ou o pintor Amadeo de Souza Cardoso (1887-1918) – todos representantes de um fulgor criativo dos inícios do século tanto quanto justamente, de uma relação problemática com o país de origem. Por outro lado Se eu fosse ladrão… é ainda um repositório de um outro diálogo estruturante da obra de Paulo Rocha – neste caso, particularmente associado a Amadeo – em que a inspiração na cultura universal se funde com um trabalho genuíno, dir-se-ia antropológico, sobre a cultura popular portuguesa, em especial centrada na região norte do país (os pescadores do Furadouro, o vale do Douro…).

Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema

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