A cantora e compositora brasileira esteve ontem no Coliseu do Porto para a terceira e última atuação em Portugal que integra esta tour. Depois de passar pela capital, a artista rumou ao Norte e proporcionou uma noite encantadora às quase 3 000 pessoas que encheram o Coliseu.

“Maria Bethânia: Grandes Sucessos” – Os mais de 50 anos de carreira da artista dispensam qualquer apresentação. Maria Bethânia fez o que tão bem sabe fazer e deixou a plateia completamente rendida. Um ambiente mágico e único que apenas alguns artistas conseguem reproduzir.

Com poucos minutos de atraso, entra no palco uma das maiores referências e lendas vivas da música brasileira. Descalça, como é hábito, Maria Bethânia provou que os seus 71 anos são apenas números que traz consigo, porque a energia vibrante e a voz firme e limpa, estão intactas.

“Gema” foi o primeiro dos mais de 25 temas que a artista brasileira entoou ao longo de quase duas horas de espetáculo. Seguiu-se “O quereres” e com “A Dona do Raio e do Vento” chegou o primeiro de muitos poemas que a artista declamou – “Ela faz da segurança a sua força”. Este tema fala de Iansã, a senhora dos ventos e da tempestade.

Durante todo o espetáculo, além dos agradecimentos, a cantora pouco mais conversou. E nem precisou. A sua história e o seu corpo mostravam que é uma artista completa e que o palco é a sua casa. Conseguiu desconcertar o público com os seus poemas que soam com tamanha verdade e ao mesmo tempo fez do Coliseu uma pena para voar com ela em cada canção.

“Onde Estará o Meu Amor” e “Estado de Poesia” estiveram também no reportório da passada noite. Seguiu-se um momento intimista com a artista a cantar o tema “Lágrima” acompanhada apenas por uma guitarra.

“A Balada de Gisberta” também não foi esquecida. Este tema retrata a vida de uma imigrante ilegal brasileira que foi brutalmente assassinada em 2006.

Depois deste momento, Maria Bethânia saiu de cena para trocar o vestido dourado e brilhante com que se havia apresentado. No palco, ficaram os sete músicos que a têm acompanhado. Com violoncelo, piano, guitarras, bateria e percussão entoaram alguns sambas e mereceram as palmas que lhes seguiram.

De volta, desta vez com uma saia igualmente brilhante, Maria Bethânia cantou o tema “Cálice” e entoou mais um poema. “Se me perguntarem qual é a minha pátria, eu não sei dizer (…) é a luz, o sol e a água (…) que fazem a minha lágrima”.

A caminhar para a parte final do espetáculo, a artista relembrou Amália Rodrigues e revelou a devoção que tem pela fadista – “Amália sempre e agora”.

Seguiu-se uma outra homenagem. Desta vez, Maria Bethânia fez descer uma tela e passou imagens de Naná Vasconcelos, o músico brasileiro que morreu em 2016. “Saudade. Obrigada amigo, ilustre, a mais nova estrela que brilha”.

“Samba da Bênção” de Vinicius de Moraes não poderia faltar nesta noite. Num dos temas mais populares do da musica brasileira, a artista faz referência e pede bênção a grandes nomes da música e das artes, como é já natural neste tema (no tema original, o autor pede a bênção a várias pessoas que admira). Não faltaram personalidades como o próprio Vinicius de Moraes, Gilberto Gil e o irmão da cantora, Caetano Veloso, “Saravá!”.

“A bênção à Cidade do Porto e à sua gente!” – A artista lembrou ainda Fernando Pessoa, “aquele que sustenta a minha poesia, o ritmo desassossegado do meu coração.”, “Saravá!”.

Antes de terminar, Maria Bethânia cantou um fado de Amália Rodrigues. Os acordes da guitarra descolaram-se do samba e a artista interpretou “Meu Amor é Marinheiro”. Um momento muito aplaudido.

“Menina dos Olhos de Oyá” e o tema “Reconvexo”, do seu irmão Caetano Veloso, foram dos últimos a fazerem-se ouvir neste Coliseu do Porto que já tanto cantou.

“O que é, o que é” foi a canção que concluiu o espetáculo e pôs o Coliseu a cantar a letra que tão bem conhece: “É a vida, é bonita e é bonita”. Seguiu-se o Encore com o tema “Explode Coração”.

Uma noite que deixou o Coliseu rendido à artista e que a fez regressar, mais uma vez, ao palco para cantar de novo “O que é, o que é”. Maria Bethânia mostrou-se agradecida pelo carinho e o público respondeu com uma ovação em pé que durou vários minutos.

A artista termina assim o último concerto em Portugal desta tour. Mágico, encantador, leve e desassossegante.

Maria Bethânia

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Texto: Daniela Fonseca
Fotografias: Bruno Ferreira

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