«O conhecimento filosófico não vale nada», escreveu um senhor, a propósito do comportamento de um filósofo da nossa praça. Ora, isto é coisa para arreliar Sócrates (o grego, atenção!) e para fazer o Santo Agostinho dar voltas no túmulo. Quem mora na filosofia?

Procurei esclarecer o sentido daquelas palavras. Acrescentei um «por si» e eis que o resultado fica, parece-me, mais próximo da verdade. Vejamos:

«O conhecimento filosófico, por si, não vale nada»

Deixem o «por si, não vale nada» e completem a frase à vossa vontade. Por exemplo:

  • «Dizer 10 vezes ao dia “sou muito boa pessoa”, por si, não vale nada»
  • «Comprar muitos livros e guardá-los na estante, por si, não vale nada»
  • «Imprimir o plano alimentar e colá-lo no frigorífico, por si, não vale nada»
  • «Ter uma ideia, por si, não vale nada»
  • «Ir à missa, por si, não vale nada»

Há ideias e actos que, por si, não têm valor algum. Vivemos muito iludidos com a noção de que podemos criar realidade através das palavras, por exemplo. Mas consta que esse carácter criacionista, pela palavra, só a deus pertence. Podemos também falar do aspecto altruísta (ou egoísta) das boas acções e discutir se isso basta para que nos tornemos seres humanos melhores. E aí, nesse momento, questionamos o bem e o mal e a forma como um e o outro interferem – à partida ou à chegada – no nosso olhar sobre aquilo que está à nossa volta. (Sim, a filosofia é muito isto, caminhar de interrogação em interrogação, em modo non stop – infelizmente, estas caminhadas não contribuem para a melhoria do porte físico, apenas do intelectual).

Tal como os sinais de trânsito – que se limitam a dizer «tem que seguir por aqui», mas nunca vão a lado nenhum – também o conhecimento, o saber acumulado poderá não ser o motor para coisa alguma. Conhecemos tantos casos de professores, autênticas “enciclopédias humanas” incapazes de dar uma aula com o mínimo de competências pedagógicas. Médicos com um passado académico acima de 19 que são autênticas nulidades no trato com os doentes. E filósofos que, por muito que leiam ou escrevam, vão DE encontro àquilo que estudam e defendem em neverending ensaios. E todos sabemos que ir DE encontro às coisas pode ter efeitos secundários: hematomas ao nível do intelecto e distância entre o que se diz e faz. Verdadeiras nódoas negras indetectáveis a olho nu.

Talvez os filósofos sejam apenas seres humanos, que confundem o “ir ao encontro” com um “ir de encontro”. Que têm dúvidas, porque as certezas podem tornar-se pesos insuportáveis nos ombros e causar hérnias discais. Talvez a filosofia não esteja assim tão distante da vida de todos os dias. Talvez todos nós tenhamos morada nessa rua, que se chama Filosofia.

Eu e os Ladrões do Tempo, garantidamente, já lá moramos.

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