Joana Rita defende que a filosofia se pode encontrar nas mais pequenas coisas. E nas maiores também: como na(s) arte(s). Inauguramos hoje o momento Philo Arte deste vosso pasquim online que, sempre atento ao que se ouve por aí, leva a cabo a análise existencial do dilema de Juvencio Luiz. Não conhecem? O Jean Paul Sartre, autor de O Ser e o Nada, também não conhece. E certamente lamenta.

 

“Minha vida está um dilema

Mas o que é que eu vou fazer”

 

É assim que Juvencio Luiz inicia a música “Amor de hoje”, indicando de forma evidente a problemática existencial do vazio provocado pelo dilema de partilhar a vida com uma pessoa que está quando ele não está e não está quando ele está. Confuso? Nós também – todavia, acreditamos que um olhar profundo sobre o poema irá trazer luz a esta estória de vida e de amor. Vejam o vídeo e acompanhem-nos nesta reflexão.

Um casal que vive desencontrado procura, a todo o custo, compreender as razões para tal situação. O indivíduo em questão, na voz de Juvencio, questiona inúmeras vezes o porquê desta situação. Todo o tom interpretativo do cantor dá a entender um questionar constante, sobre a relação em si e o próprio sentido da vida. Afinal, a sua vida resultou num verdadeiro dilema. Talvez o facto de ambos trabalharem em horários díspares não tenha ajudado.

A repetição constante da ausência da esposa, ou seja, o confronto com o nada, ao chegar a casa, uma, duas, três vezes, arrasta-o para o precipício, conduzindo-o ao envenenamento e ao suicídio:

 

“Eu não aguentei

E quase me envenenei”

(…)

“Eu não aguentei

E quase me suicidei”

 

O vídeo da música ilustra o desencontro constante do marido e mulher. Ambos têm o hábito de jantar fora, ainda que em restaurantes diferentes, parece. Um olhar atento ao vídeo indica alguma infelicidade por parte dos protagonistas que, ainda assim, partilham os mesmo gostos: o jantar fora, ir para os copos. Com tanta coisa em comum, afinal, o que motiva este desencontro?

 

“Se vou pr’ os copos também vais

é desafio o quê?

pra competir ou quê?”

 

O senhor acaba por abandonar o lar, levando pela mão a criança. Nesse momento, o cantor Juvencio anuncia uma espécie de lei do karma, de what goes around, comes around que revela a sua verdadeira essência. A saber:

 

“Vais-te dar male

Vais-te dar male mulher

Eu sou macaco velho

Vais-te dar male”

 

Neste momento, ficamos a perceber que talvez tenha havido um retrocesso ontológico, no que à identidade: afinal, o senhor assume-me como um animal, numa metáfora que alude, mais uma vez, a uma espécie de lei do karma: sim, eu vou embora de casa, com esta tshirt verde alface fluorescente que não lembra nem ao menino Jesus; mas espera para ver, pois o destino irá encarregar-se de ti. Prevê-se que a própria senhora, mais dia menos dia, apareça também ela trajada de verde alface fluorescente e acabará sozinha: será impossível alguém aproximar-se dela.

Comentários